O que compõe o retorno exigido nos investimentos?

O cálculo do retorno exigido para seus investimentos pessoais (ou investimentos com capital próprio no caso de uma empresa) deve levar em conta alguns fatores:

Primeiro, o retorno exigido deve recuperar o poder de compra, ou seja, deve se no mínimo igual à inflação.

Exemplificando: inflação de 4% ao ano significa a elevação média (ponderada) dos preços de produtos e serviços em 4% no ano. Isso faz com que você precise de 4% de valorização do seu patrimônio para comprar o mesmo que comprava um ano antes. É o que chamamos de correção monetária.

Portanto, rentabilidade abaixo de 4% é perda de poder de compra, rentabilidade igual a 4% é recuperação do poder de compra e rentabilidade acima de 4% é aumento do poder de compra.

Mas é claro que só faz sentido investir se for para ter aumento do poder de compra. Todo poupador (e investidor) quer ter um prêmio por deixar de consumir hoje para consumir depois. Qual seria a graça – melhor dizendo, a vantagem – de deixar de consumir, guardar dinheiro, para, daqui a 10 anos, consumir exatamente a mesma coisa?

Exemplificando: uma inflação anual de 4% equivale a uma inflação de 48% em dez anos, aproximadamente. Se você tem R$20.000,00 à vista para fazer a viagem dos seus sonhos hoje, só faz sentido adiá-la e colocar os recursos para render, se, daqui a um tempo, o montante acumulado com o investimento permita a viagem de seus sonhos e algo a mais (que você julgue justo para pagar a sua espera). Se não for assim, melhor viajar logo hoje. Ou seja, é preciso que o montante esteja acima de R$29.600,00, que é o valor da viagem hoje corrigido pela inflação de 10 anos.

Esse prêmio é o que chamamos de utilidade da taxa de juros, ou utilidade do retorno exigido.

Normalmente, essa utilidade já é conseguida com investimentos livres de risco, como, por exemplo, investimentos que pagam 100% do CDI (sigla para certificado de depósito interbancário, que é o indexador básico do mercado de renda fixa) ou investimentos em LFT (sigla para letras financeiras do Tesouro, também conhecido como Tesouro SELIC, considerado o título de dívida pública mais seguro do Brasil).

Essas taxas sem risco são o que chamamos custo de oportunidade ou simplesmente oportunidade.

Exemplificando: com o CDI igual a 6,39% ao ano (valor de outubro/2018), um investimento de retorno igual a 100% do CDI paga exatamente 6,39% no ano (não vamos considerar impostos nesse texto). Isso significa que temos a oportunidade (de fato) de investir (sem risco) à taxa de 6,39% ao ano. Considerando a inflação de 4% ao ano, temos que a utilidade é igual a 2,39% ao ano (6,39% - 4%).

No exemplo da viagem, após 10 anos de investimento na oportunidade (CDI) (claro que, para efeito didático, estamos supondo que o CDI e a inflação se mantenham em 6,39% e 4% ao ano, respectivamente), você teria deixado de gastar R$20.000,00, para ter R$37.156,78 e, com isso, gastar R$29.600,00 com a viagem e ainda ter a diferença (R$7.556,78) para outros gastos (valor referente ao prêmio por deixar de consumir hoje para consumir mais na frente, justamente a utilidade).

Se o investidor quiser mais que a oportunidade, ele vai assumir riscos e, portanto, vai exigir um prêmio pelo risco assumido. Esse é o último fator que compõe o retorno exigido.

Observe que não faz sentido assumir riscos, se o retorno esperado não superar o retorno conseguido na oportunidade sem risco. É preciso um compensação, uma recompensa.

De forma resumida, o retorno exigido é a soma da oportunidade sem risco com o prêmio por risco.

Exemplificando: investir em fundos multimercados ou fundos de ações, investir em crédito privado estruturado, investir em fundos imobiliários, investir em ações, até mesmo investir no seu próprio negócio aumenta o nível de risco assumido, de forma que o retorno esperado deve ser a oportunidade sem risco adicionada de uma parcela de prêmio por risco.

No caso de fundos multimercados, os retornos esperados ficam em 120% a 130% do CDI, algo entre 7,67% e 8,31% ao ano. Prêmio de risco entre 1,28% e 1,92% ao ano.

Obviamente, você deve ter um horizonte de médio/longo prazo e uma carteira de investimentos bem diversificada para receber essa recompensa.

O interessante é que nem sempre esse prêmio por risco é proporcional ao risco, por mais diversificada que esteja sua carteira. Há produtos e estratégias com relação risco x retorno muito mais eficientes que os produtos comumente oferecidos em bancos e corretoras. É só saber buscar ou ter um assessor de investimentos competente e comprometido com os resultados do cliente.

Abraço,

Rodrigo Leone